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Marcos Resende Amigos

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Arley Pereira - Falando Javanês

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31 de dezembro de 2005. Amanhã será mais um “cumple años”. Para ser mais exato, setenta e um. Cada vez mais, um sobrevivente. Olho ao redor e cada vez menos encontro quem entenda o idioma que falo. Culturalmente o chamado choque de gerações me faz a cada dia encarnar mais a persona do homem que falava javanês. Quantos falam javanês hoje, com quem manter uma conversação de igual para igual?


A cada dia os obituários trazem este ou aquele nome. Um contemporâneo de imprensa. Um amigo de juventude. Um companheiro de botequins. O Jornal Nacional conta que “fulano foi sepultado hoje”. E lá se vai mais um que falava o mesmo idioma e restam cada vez menos os que falam e entendem javanês. As referências culturais se esmaecem, se vão, desaparecem e cada vez mais, falamos sozinhos. Porque, os interlocutores com menos de quarenta (cinqüenta?) geralmente não sabem do que estamos tratando. E não precisa recuar muito, às vezes citamos Elis, Vinicius, Nélson Rodrigues e não sabem de quem se trata...

Conversar, bater papo, trocar ideias? O circulo vai-se fechando, pessoas que dele participam vão sendo substituídas e se torna cada vez mais comum alguém na roda ignorar do que ou de quem se trata. Drummond, Bandeira (até Vinicius) passam a ser tão distantes quanto Bilac, Castro Alves, que dirá Neruda, Baudelaire, Pessoa? Resta — quando muito — esse chato do Ferreira Gullar para ser citado pelas chamadas novas gerações.

Não se apressem. Não estou sendo saudosista, daqueles para os quais tudo o que passou é melhor. Reclamo é da falta de conhecimento do que era melhor em sua época. Para Pelé ser grande, antes dele Leônidas, Friedenreich, Heleno de Freitas, Baltazar, fizeram seus gols. E para Robinho e os Ronaldos marcarem os seus, Pelé marcou antes. Mas, quem se lembra de Leônidas, Heleno, etc.?

Em todos os campos, em todas as áreas, o javanês se torna mais e mais oficial. Com quem trocar idéias sobre os talentos vocais de Elis Regina e Elizeth Cardoso, se o interlocutor não for versado no idioma? Ou, mais ainda, de Linda e Dircinha Batista, Aracy de Almeida e Aurora (talvez Carmen) Miranda? Os “atuais” desconhecem tais nomes, mas foram elas — mais Clara Nunes, Clementina de Jesus e tantas outras — que abriram os caminhos para as cantoras de hoje.

Silvio Caldas? Orlando Silva? Carlos Galhardo? Ciro Monteiro? Nélson Gonçalves? Francisco Alves? Quem diabos foram tais senhores? Sabe-se hoje quem são Chitãozinho & Chororó, Zezés & Lucianos. Mas, com quantos trocar recordações do Caboclinho Querido, do Cantor das Multidões, do Rei da Voz? Citar Cartola, Lupicínio, Nélson Cavaquinho, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Anescar, ou mesmo Noel Rosa, Custódio Mesquita, Mário Lago, só se no papo estiverem Cristina Buarque de Hollanda (de seu irmão todos se lembrarão, com justiça), Martinho da Vila, Paulinho da Viola ou Elton Medeiros, seus legítimos herdeiros e que ainda conseguem ser lembrados e citados pelos “contemporâneos”.

Vá alguém de minha geração tentar trocar idéias sobre Getúlio Vargas, Juscelino, ou até Jânio Quadros. Se não aparecer um dinossauro que fale e entenda javanês nas imediações, falará sozinho, pois a “galera” só lembra mesmo é do Lula e com algum esforço do Fernando Henrique.

Há tempos a humanidade procura o Elixir da Juventude, aquele que prolongará a vida até quando o vivente dela desistir. Se descoberto, o tal Elixir deveria funcionar para todos, caso contrário o tédio eterno se instalaria e muita gente pediria o boné ao perceber que fala um “idioma” que ninguém entende. De certa forma é o que está acontecendo com os sobreviventes da minha geração. É falar em Fred Astaire e Ginger Rogers, ou em Clark Gable e Marylin Monroe (vamos passar longe de Greta Garbo, Spencer Tracy, Mae West, Jean Gabin, por aí...), para ouvir um interrogativo “hein”, “quem”, “como”? Se falar em Atlântida, Oscarito, Grande Otelo, Eliana, Mazzaropi, o javanês se instala completamente, então.

O telefone interrompe, mas tenho o prazer de atender alguém que também fala nosso idioma. O lendário Miro, dono do não menos lendário (mas, infortunadamente desaparecido) restaurante Parreirinha, lembra do aniversário e liga para cumprimentar. Como bom e honesto corintiano não pretende justificar o tumultuado campeonato passado, com juizes roubando e virando resultados. Lembra que isso sempre existiu e ninguém prendeu os Mário Vianna, João Etzel, Romualdo Arppi Filho, Ethel Rodrigues, de famigeradas biografias. Quem foram? Só se você souber javanês lembrará tais figuras...

E já que estamos no esporte chamado das multidões: qual o javanês aí que lembra das narrações de Pedro Luiz? De Edson Leite, dos comentários de Mário Moraes ou Mauro Pinheiro, aqui em São Paulo? Gente que fez a história do rádio esportivo, que abriu caminhos e os pavimentou para os profissionais de agora, e que noventa e nove por cento dos que gritam gol, não têm idéia de quem sejam.

E quem trocará ideias conosco sobre os nomes do rádio e dos primórdios da televisão? Daquelas tarde memoráveis da Rádio Bandeirantes de Enzo de Almeida Passos, do Walter Pica-Pau Silva, Moraes Sarmento, Sergio Galvão, Henrique Lobo, do vozeirão de Antônio Pimentel? De Otávio Gabus Mendes, Dermival Costa Lima, Homero Silva? Ou na televisão, o “príncipe” Walter Forster, o genial Cassiano Gabus Mendes, os talentosos Luiz e Renato Gallon? Com quem rememorar as “gags” de Walter Stuart, a presença precoce do ainda menino Adriano, seu filho? E o Vigilante Rodoviário? As garotas-propaganda? O Clube Papai Noel? A Ginkana Kibon?

Cada vez mais estou falando sozinho. Cada vez menos entendem o javanês no qual se transformou meu linguajar, minhas memórias, minhas lembranças. Espero sinceramente não ser o último dos meus a me comunicar em tal idioma.

P.S.: Para quem não sabe: “O Homem que Sabia Javanês”, é um conto de Lima Barreto. De quem?...

31 Dezembro 2005 


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